Os indicadores divulgados na última semana de novembro evidenciam um “nó” econômico que dificulta a condução da política monetária no Brasil. A economia combina um mercado de trabalho em plena utilização da capacidade com um quadro fiscal ainda frágil. Essa junção — atividade forte e contas públicas deterioradas — reduz o espaço técnico para o Banco Central iniciar uma trajetória de queda da Selic.
O primeiro lado do nó: Demanda aquecida e pleno emprego
A PNAD Contínua apontou taxa de desocupação de 5,4%, mínima histórica e compatível com pleno emprego. A massa de rendimento real, alcançando R$ 332 bilhões, reforça o dinamismo do consumo.
Nesse ambiente, a pressão mais relevante recai sobre a inflação de serviços, setor altamente sensível ao nível de ociosidade. Com a disponibilidade de mão de obra praticamente esgotada, os custos de produção aumentam e o repasse tende a ser mais rápido. Assim, mesmo com o IPCA dentro da banda da meta, a inflação torna-se mais rígida — exatamente o tipo de persistência que o Banco Central monitora ao calibrar cortes na taxa básica.
O segundo lado do nó: A âncora fiscal enfraquecida
Em paralelo, o lado fiscal cria um piso para os juros. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 78,6% do PIB em outubro, enquanto o déficit nominal acumulado supera R$ 1 trilhão. Essa combinação aumenta a percepção de risco e pressiona a curva de juros futuros.
Juros longos elevados indicam que o mercado exige maior remuneração para financiar o Estado. Isso dificulta cortes na Selic porque, se a taxa básica cai enquanto o juro de longo prazo permanece alto, o Banco Central corre o risco de desancorar expectativas e perder credibilidade no controle inflacionário. O resultado é um cenário onde o BC tem menos margem para flexibilizar a política monetária.
Um ambiente que trava a queda da Selic
O encontro entre esses dois fatores — demanda aquecida e risco fiscal elevado — forma um bloqueio estrutural à redução dos juros. A política monetária precisa atuar com cautela porque estímulos adicionais podem reacender a inflação num ambiente de trabalho apertado, ao mesmo tempo em que a fragilidade fiscal mantém as expectativas mais deterioradas.
ConclusãoO cenário para 2026 se tornou mais complexo. O Brasil convive com uma economia real robusta, impulsionada pelo emprego e pela renda, mas ainda sem uma âncora fiscal suficientemente sólida. Enquanto essa combinação persistir, o Banco Central ficará limitado na velocidade e na profundidade de qualquer ciclo de cortes na Selic.


